![]()
- Lembro-me perfeitamente de minha primeira auto-mutilação. Estávamos mamãe, papai e eu em minha 12º enfadonha reunião de família, que os Albuquerque gentilmente ofereciam-nos em sua casa todos os anos. Aqueles encontros perduravam-se da hora do chá, até que o primeiro homem bêbado caísse sonolento ao chão.
As mulheres da família já se reuniam na saleta de visitas, como costumeiramente faziam, para falar de seus filhos, maridos e afazeres domésticos. Os homens, por sua vez, exibiam seus melhores charutos e conhecimentos sobre política. E eu? Olhava os mesmos quadros, livros e fotos que das últimas 11 vezes em que estive ali. Ia seguindo a trilha de quadros de Van Gogh, que desembocava na sala de piano, onde estranhei um vulto negro e rápido que dali saia em direção a um dos quartos. Rapidamente fui ver o que acontecia. Deparei-me com meu pai e uma das empregadas dos Albuquerque, Luciana, a mais nova delas. Logo que notou minha presença, meu pai saltou em minha direção e agarrou um dos meus braços com tal força, que penso senti-lo até hoje.
Sai ao encontro das mulheres da família: a mão cobrindo a marca dos dedos de meu pai e os olhos em guerra contra as lágrimas. Logo depois meu pai chegou e se aproximou carinhosamente de minha mãe e eu tive que presenciar aquilo sem que pudesse dizer uma palavra.
Dali em diante, seguidas foram as vezes em que me machuquei ou deixei que mutilassem um pouco de mim. Levo comigo cicatrizes abertas e fechadas, algumas roxas, outras avermelhadas, porém todas não cicatrizadas. Cicatrizes do primeiro casamento, arranhões do segundo, pesadelos de uma vida omissa e sem direito a esparadrapo. O mundo me deixou marcas, sem que eu o tenha marcado. Hoje, como de costume, uso meu melhor silêncio para me despedir da vida e adentrar a eternidade.
Carta de uma suicida
domingo, 7 de fevereiro de 2010 by Jessica
Assinar:
Postagens (Atom)